Todo mundo ostenta. Todo mundo ostenta o tempo todo.
O mundo nos deu muitas ferramentas para que a gente possa
ostentar. Até um bom tempo atrás, ostentar era uma tarefa difícil, exigia da
gente criatividade e era complicado. Você comprava um carro novo e para
ostentar visitava aquele parente que você nunca visitava. Deixava-o estacionado
na frente de casa (mesmo com a garagem vazia), só para que todos os vizinhos
vissem seu 1.0 novo.
Celular, para ostentar o celular que você comprava enquanto
ninguém mal sabia o que era, você tinha que fingir que estava recebendo ou
efetuando uma chamada, para que as pessoas a sua volta vissem que você tem um
celular (#cult #moderno #prafrentex) e que melhor ainda, que você o utilizava.
Você colocava as melhores roupas para sair e fazia de tudo para
que as pessoas percebessem. Vamos desfilar muito por essa festa.
Eletro e eletrodoméstico o sistema era diferente. Bem
diferente. Criativo:
Caixa de embalagem, você ostentava suas conquistas com a
caixa de embalagem. Deixava montadinha (não, você não iria dobrar ela, ou a
ostentação não seria efetuada) a caixa que veio embalado o seu produto e
colocava na lixeira logo lá pelas 6:00 da manhã (se a coleta de lixo passasse
as 18:00hs, caso ela passasse pela manhã, esperava ela passar para depois por).
Motivo? Mais pessoas passariam e notariam a sua compra, e assim você poderia
ostentar a compra do seu micro-ondas novo, enquanto os outros vizinhos mal
tinham fogão elétrico.
Hoje em dia a “ostentação” ganhou gadgets que facilitam
muito a nossa vida.
A cultura mudou também, de forma a algumas práticas não
darem mais para ser posta em prática. EX: coleta seletiva do lixo. Você tem que
reciclar, então não da para ostentar a embalagem na rua, porque você tem que
fazer a separação e entregar esses resíduos para a coleta seletiva e não para a
coleta de lixo comum. Fo-de-o.
Mas quem precisa de lixeira quando se tem Instagram,
Facebook, Twitter e tantas outros meios de fazer a ostentação. Youtube. Não
estou dizendo que essas meios são nossas lixeiras da ostentação moderna (embora
parcialmente seja). Mas essas ferramentas ajudaram e muito para que uma cultura
que já tínhamos, ganhasse mais força ainda e facilitasse a nossa vida de valorização
do super ego e ostentação do que temos (o importante é ter e não ser. Esse é
infelizmente o mantra da vida moderna).
Hoje você filma e registra o seu primeiro contato com um
celular novo e ‘sobe’ para o Youtube, compartilha nas redes sociais e ‘vua-lá’.
Ostenta. Você tira foto das suas idas as compras e mostra quais “looks”
escolheu no facebook e depois faz um enquete “qual usar hoje a noite” ou hashtag
#lookoftheday. Você tira foto dos seus aparelhos novos e posta no Instagram
#aquisições (eu já fiz isso). Ou os mais descontrolados #vicio #amo, tudo em
torno da “ostentação e a luxuria”. Vamos fazer check-in pro Foursquare?
Também tem as formas de terceirizar a ostentação de algo.
Essa é utilizada frequentemente e as vezes inconscientemente. Sabe quando você
tira foto daquela paisagem enquadrando o seu carro pra vê se alguém percebe sua
conquista, mas põem a legenda ‘dia lindo’, ‘paisagem’ ou ‘natureza é bela’? Terceirização
da ostentação.
Ou quando mostra uma filmagem engraçada no celular, com o
seguinte comentário prévio antes do play: “estava de noite, mas meu celular
filma em HD, por isso da para ver bem...”? Terceirização da ostentação.
Também tem os que põem na assinatura do e-mail “sent from
Iphone”. Ai que luxo.
A ostentação esta parra a pessoa assim como o ar está para a
vida. Partes de nós. É inevitável. Em algum momento você vai ostentar.
Consciente ou inconscientemente fazemos isso, a diferença está na proporção e
na intenção. Também difere os tipos de ostentação. Algumas ostentações só
desnudam a mediocridade e futilidade de algumas pessoas, algumas poucas
ostentações despertam na gente a curiosidade “que curso legal, que livro
interessante, que cidade maravilhosa”.
Poderíamos inaugurar um novo tipo de ostentação
terceirizada, aquela a favor da cultura e sem futilidade. Será que dá?
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