quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Vamos terceirizar a ostentação?


Todo mundo ostenta. Todo mundo ostenta o tempo todo.

O mundo nos deu muitas ferramentas para que a gente possa ostentar. Até um bom tempo atrás, ostentar era uma tarefa difícil, exigia da gente criatividade e era complicado. Você comprava um carro novo e para ostentar visitava aquele parente que você nunca visitava. Deixava-o estacionado na frente de casa (mesmo com a garagem vazia), só para que todos os vizinhos vissem seu 1.0 novo.

Celular, para ostentar o celular que você comprava enquanto ninguém mal sabia o que era, você tinha que fingir que estava recebendo ou efetuando uma chamada, para que as pessoas a sua volta vissem que você tem um celular (#cult #moderno #prafrentex) e que melhor ainda, que você o utilizava.

Você colocava as melhores roupas para sair e fazia de tudo para que as pessoas percebessem. Vamos desfilar muito por essa festa.

Eletro e eletrodoméstico o sistema era diferente. Bem diferente. Criativo:
Caixa de embalagem, você ostentava suas conquistas com a caixa de embalagem. Deixava montadinha (não, você não iria dobrar ela, ou a ostentação não seria efetuada) a caixa que veio embalado o seu produto e colocava na lixeira logo lá pelas 6:00 da manhã (se a coleta de lixo passasse as 18:00hs, caso ela passasse pela manhã, esperava ela passar para depois por). Motivo? Mais pessoas passariam e notariam a sua compra, e assim você poderia ostentar a compra do seu micro-ondas novo, enquanto os outros vizinhos mal tinham fogão elétrico.

Hoje em dia a “ostentação” ganhou gadgets que facilitam muito a nossa vida.
A cultura mudou também, de forma a algumas práticas não darem mais para ser posta em prática. EX: coleta seletiva do lixo. Você tem que reciclar, então não da para ostentar a embalagem na rua, porque você tem que fazer a separação e entregar esses resíduos para a coleta seletiva e não para a coleta de lixo comum. Fo-de-o.

Mas quem precisa de lixeira quando se tem Instagram, Facebook, Twitter e tantas outros meios de fazer a ostentação. Youtube. Não estou dizendo que essas meios são nossas lixeiras da ostentação moderna (embora parcialmente seja). Mas essas ferramentas ajudaram e muito para que uma cultura que já tínhamos, ganhasse mais força ainda e facilitasse a nossa vida de valorização do super ego e ostentação do que temos (o importante é ter e não ser. Esse é infelizmente o mantra da vida moderna).

Hoje você filma e registra o seu primeiro contato com um celular novo e ‘sobe’ para o Youtube, compartilha nas redes sociais e ‘vua-lá’. Ostenta. Você tira foto das suas idas as compras e mostra quais “looks” escolheu no facebook e depois faz um enquete “qual usar hoje a noite” ou hashtag #lookoftheday. Você tira foto dos seus aparelhos novos e posta no Instagram #aquisições (eu já fiz isso). Ou os mais descontrolados #vicio #amo, tudo em torno da “ostentação e a luxuria”. Vamos fazer check-in pro Foursquare?

Também tem as formas de terceirizar a ostentação de algo. Essa é utilizada frequentemente e as vezes inconscientemente. Sabe quando você tira foto daquela paisagem enquadrando o seu carro pra vê se alguém percebe sua conquista, mas põem a legenda ‘dia lindo’, ‘paisagem’ ou ‘natureza é bela’? Terceirização da ostentação.

Ou quando mostra uma filmagem engraçada no celular, com o seguinte comentário prévio antes do play: “estava de noite, mas meu celular filma em HD, por isso da para ver bem...”? Terceirização da ostentação.
 Também tem os que põem na assinatura do e-mail “sent from Iphone”. Ai que luxo.

A ostentação esta parra a pessoa assim como o ar está para a vida. Partes de nós. É inevitável. Em algum momento você vai ostentar. Consciente ou inconscientemente fazemos isso, a diferença está na proporção e na intenção. Também difere os tipos de ostentação. Algumas ostentações só desnudam a mediocridade e futilidade de algumas pessoas, algumas poucas ostentações despertam na gente a curiosidade “que curso legal, que livro interessante, que cidade maravilhosa”.

Poderíamos inaugurar um novo tipo de ostentação terceirizada, aquela a favor da cultura e sem futilidade. Será que dá?

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